... ou poderia ser!

domingo, 20 de julho de 2008

Às vezes acontece...

" Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!

Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos."



Esse trecho de Clarice Lispector resume minha vida amorosa. Eu e meu grande amor, que distraidamente encontrei e não tão distraidamente perdi. Prestem atenção nisso, minha gente, se distraiam, se distraiam...




Me desculpem o post sentimental de hoje. É que acordei meio nostálgica.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Um sinal em minha vida...

Todo santo dia eu paro em um sinal* quando estou voltando do trabalho e vejo a mesma senhora. Ela está lá sempre. Antes, vendia chocolate. Agora, vende biscoito Globo. Mas desde o primeiro dia em que a vi, me chamou atenção a sua alegria.


Ela vem pelos carros oferecendo o biscoito com um sorriso de orelha a orelha. Há 2 anos. Há 2 anos ela está ali. De vez em quando eu compro, só porque eu fico admirada com a alegria que ela me transmite. E sempre pensava que no dia seguinte a flagraria de saco cheio dessa vida desgraçada de vendedora de sinal.


Ela não tem noção de quantas vezes refleti sobre a vida ao observá-la. Eu ficava pensando se era realmente tão feliz quanto parecia. Hoje eu me pergunto como ela consegue ser tão feliz, estando ali na chuva e no vento, muitas vezes até tarde da noite.


O fato é que essa história de que a felicidade está dentro da gente é uma baboseira verdadeira. Conheço gente que tem o carro do ano, o casamento perfeito, filhos lindos, bela casa e está sempre reclamando. Eu mesma já me peguei falando mal da vida pelos cantos. Até que apareceu essa senhora no meu sinal, justo naquele que eu nunca pego aberto. E ela me deu uma lição de vida que, sinceramente, nunca havia aprendido com ninguém.

A escolha é sempre nossa.





* sinal de trânsito, semáforo, farol.